sábado, 29 de novembro de 2025

Entre a dor e o milagre: um ano após tragédia que marcou União dos Palmares, sobreviventes e socorristas relatam momentos vividos

Hoje faz um ano do trágico acidente que deixou 20 mortos e 28 feridos, dos 48 passageiros do ônibus que ia para a Serra e tombou em um penhasco de aproximadamente 350 m.

Dia 24 de novembro, um dia que ficará marcado para sempre na história do povo palmarino, o que seria mais um dia de alegria, apreciando o pôr do sol na Serra da Barriga, se tornou uma das maiores tragédias do município de União dos Palmares. Hoje faz um ano do trágico acidente que deixou 20 mortos e 28 feridos, dos 48 passageiros do ônibus que ia para a Serra e tombou em um penhasco de aproximadamente 350 m.

O capoeirista e guia turístico Mano Gill foi uma das pessoas que atuou no resgate das vítimas. Em entrevista ao Cada Minuto, explicou como as auxiliou: “Lembro que eu estava lá na Serra da Barriga aguardando um grupo de turistas que não tinha chegado ainda no local para fazer o passeio, quando chegou a notícia que o ônibus tinha tombado, daí eu peguei a moto e fui lá verificar. Quando eu cheguei lá me deparei com aquela cena, que jamais será apagada na nossa memória”.

Ficará marcado pelo resto da vida          

Gill afirma que nunca havia presenciado uma tragédia desse tamanho. “Confesso para você que foi difícil dormir nos primeiros dias após o acidente, foi um mês de sufoco sem conseguir dormir direito pelos flashs que dava e dá na nossa memória. A gente vai superando aos poucos esses flashs, mas isso ficará marcado na minha mente pro resto da minha vida”.

“Um cenário de guerra”, descreveu o capoeirista, que foi um dos primeiros a chegar para socorrer as vítimas, junto com os moradores do platô da serra. “O resgate foi uma força-tarefa. A gente começou a fazer o processo do resgate com o conhecimento que a gente tinha, com cordas, o pessoal ajudando para que a gente pudesse tirar aquelas pessoas o mais rápido possível do local”, explicou.

As vítimas eram retiradas do local nas costas e nos braços dos voluntários. Em seguida, outros voluntários que estavam com carros iam levando as pessoas ao hospital. À época, Geanny Vergeth atuava como diretora geral do Hospital Regional da Mata (HRM) e soube do acidente através de uma ligação do gestor do município.

Cada um sabia seu papel

“Quando chegaram ao hospital, já estávamos todos preparados. Toda a equipe e muitos funcionários que não estavam no plantão se sensibilizaram e foram para o hospital para ajudar, porque sabíamos que eram muitas vítimas. Eles mostraram que heróis só não têm capa, heróis também vestem jaleco”.

De acordo com Geanny, um dos momentos que mais lhe marcou foi quando as crianças que chegavam sem os pais precisavam ser marcadas por números, por não saber falar seus nomes, e as crianças que chegavam perguntando por seus pais, e ela não sabia onde estavam e nem se estavam bem.

“O que me marcou foi quando começamos a numerar as crianças com uma caneta de pincel atômico. Isso realmente me deixou chocada, porque aquelas crianças não sabiam dizer seus nomes e não tinha ninguém da família. Então, criança 1, criança 2, criança 3. O documento dos exames tinha esses nomes e nós tínhamos que colocar nos braços daquelas crianças o número delas. Isso realmente me marcou”, disse.

“Porém, naquele dia Deus foi tão fiel que tudo parecia uma orquestra. Eu acredito que Deus capacitou, naquele momento, todo mundo. Porque a coisa evoluía de uma forma tão dinâmica, todo mundo sabia o seu papel. A gente deu o direcionamento. A gente direcionou para cada setor o que cada um iria fazer e todos fizeram seu papel de forma exemplar”, continuou a ex-diretora.

Esperança em meio à dor

Em meio a tanta dor, ressurgiu a esperança com a chegada de Jacqueline, que estava gestante quando foi resgatada. “Ali chegava ela com outra vida dentro da barriga. Quando chegou a gente encaminhou ela para a maternidade. Depois que o bebê nasceu nós fomos conversar com a Jaqueline e ela só tinha arranhões. Deus mostrou mais uma vez que Ele é Deus. A criança nasceu, e depois de dois dias a criança e a mãe tiveram alta, e ali a gente viu que o milagre existe. Diante de tanta tragédia e de tanta dor que nós vimos, a vida daquela criança nos trouxe a alegria que nós estávamos precisando”, declarou Geanny.

 A gestante foi uma das vítimas resgatadas por Mano Gill. “Foi um milagre de Deus, Deus quem salvou e a gente foi um instrumento dEle naquele momento, para a gente tentar ajudar no resgate daquelas pessoas. A Jaqueline é prova desse milagre e os demais que estão vivos também. Hoje ela tá bem, o filho tá bem grandinho. Tão desfrutando do milagre que Deus deu para eles. Ela me convidou para ser padrinho do filho dela, o Kaylan. Em breve a gente estará realizando o batismo dele”, revelou Gill.

Jacqueline, além de Kaylan, é mãe de outros dois meninos, Nicholas e Noah, que, felizmente, não estavam com ela no momento do acidente. “Minha vida mudou completamente, meu jeito de ser e pensar, mas minha mente mais nunca vai esquecer aquele momento horrível que passei e vendo aquelas pessoas todas sofrer, foi de cortar o coração. Ver crianças chorando desesperadas à procura da mãe… eu tento esquecer o máximo, mas não tem como”, informou Jacqueline ao Cada Minuto.

“O momento que mais me marcou foi o nascimento do meu filho Kaylan Samuel, meu milagre em vida. Só tenho a agradecer a Deus e ao Gil por estar aqui hoje”, agradeceu a mãe.

 “Eu tenho certeza que é um momento de reflexão. Aquele dia deixou muitas respostas para muita gente, e para mim deixou a resposta de solidariedade. A gente observou naquele dia o quanto nós palmarinos, o quanto nós alagoanos somos solidários. Também o apoio do governo do estado, que direcionou ambulâncias, helicópteros. O secretário e a equipe da Sesau estiveram conosco, ajudando com o que nós precisávamos naquele momento. Infelizmente, algumas vidas foram ceifadas, mas o que a gente pôde fazer enquanto hospital para salvar vidas foi feito”, finalizou Geanny.

Fonte: Cada Minuto

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