Operação investiga atuação de facção para cobrar ‘pedágio’ de até R$ 60 mil para liberar candidatos a fazer campanha em bairros de Sobral.

Uma policial militar casada com um chefe de facção criminosa é uma das pessoas investigadas pela Operação Omertá, deflagrada na manhã desta terça-feira (11) para investigar a suposta influência do Comando Vermelho (CV) nas eleições municipais de Sobral em 2024 e no processo eleitoral de 2026. Ela foi afastada do cargo por 180 dias e foi alvo de mandado de busca e apreensão. Três vereadores do município foram presos na operação.
Em coletiva realizada nesta manhã, representantes do Ministério Público do Ceará (MPCE) e da Polícia Federal detalharam que a policial militar atuava no policiamento ostensivo da cidade e é casada com um chefe de uma organização criminosa com atuação justamente no município em que ela trabalhava. O marido dela já estava preso e foi alvo de um novo mandado de prisão. As identidades não foram reveladas pelos órgãos.
A mulher ingressou na Polícia Militar do Ceará em 2022 e tem a patente de soldado. O papel da policial no esquema criminoso não foi informado. Apesar disso, o Ministério Público pediu o afastamento dela do cargo por um prazo inicial de 180 dias. O pedido foi aceito pela Justiça.
Segundo apuração da TV Verdes Mares, o Comando Vermelho tentava manipular a escolha política dos eleitores por meio de coação e ameaça. Além disso, conforme o inquérito, a facção cobrava até R$ 60 mil de ‘pedágio’ para que os candidatos pudessem ter acesso a alguns bairros da cidade. Os vereadores presos são suspeitos justamente de ter pago o valor aos criminosos.
Por meio de nota, a Polícia Militar informou que prestou apoio à Polícia Federal durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão na casa da PM, ocasião em que um aparelho celular foi apreendido. A corporação confirmou que ela ficará afastada das funções até a conclusão das investigações.
Já a Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública (CGD) afirmou ter solicitado “o compartilhamento de todo o material relacionado ao caso, com a finalidade de apurar a conduta da policial militar na esfera administrativo-disciplinar”.
Na operação desta manhã, a Polícia Federal chegou a prender sete pessoas, das quais três são vereadores do município: Carlos do Calisto (PSB), Junim do Povo (Pode), e Mario Vicktor (União). Os parlamentares também foram afastados dos cargos por um prazo inicial de 180 dias.
A defesa do vereador Mário Viktor, representada pelo advogado Wentony Morais, afirmou que, até o momento, não teve acesso integral aos autos. “Assim que tivermos conhecimento do conteúdo e dos elementos do processo, faremos a devida análise. Após essa avaliação, nos manifestaremos oportunamente à imprensa”, informou.
O PSB, partido de Carlos do Calisto, informou que a abertura de um processo ético é da iniciativa do diretório municipal do partido e que existe um rito a ser seguido pela Comissão de Ética. O g1 procurou as defesas e os partidos dos outros vereadores, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
A Presidência da Câmara Municipal de Sobral, ocupada pelo vereador Chico Jóia Júnior (União), informou que “à medida que tiver acesso às informações oficiais pertinentes, adotará, no âmbito de suas competências, as providências administrativas e institucionais que eventualmente se fizerem necessárias”. (Confira a nota na íntegra ao fim da reportagem)
Investigações
De acordo com os investigadores, o inquérito foi aberto em 2024, coletando depoimentos e evidências da influência da facção nas eleições municipais daquele ano. Os indícios apontam que o ‘pedágio’ cobrado era de R$ 30 mil para candidatos que não tinham mandato e de R$ 60 mil para candidatos que já tinham mandato.
As práticas de ameaças também foram investigadas em relação ao processo eleitoral de 2026, com o cancelamento de eventos e reuniões de políticos que seriam realizados em Sobral, após ameaças de morte e de atentados contra estabelecimentos e pessoas envolvidas na organização desses eventos.
A Operação Omertá é comandada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (FICCO/CE), pelo Ministério Público Eleitoral, por meio da 3ª Promotoria Eleitoral, e pelo Grupo Auxiliar Eleitoral (GAEL).
Parlamentares são alvos de operação
Ao todo, a Operação Omertá tem por objetivo cumprir 14 mandados de prisão preventiva (incluindo os três vereadores e a policial militar), 25 mandados de busca e apreensão e 5 medidas de afastamento cautelar de cargos públicos.
As ordens judiciais foram expedidas pela 3ª Zona Eleitoral de Fortaleza. Dos 14 mandados de prisão, 7 foram cumpridos. A operação prendeu os vereadores de Sobral Carlos do Calisto, Junim do Povo e Mario Vicktor e os afastou dos cargos por 180 dias. Além deles, um assessor jurídico da Câmara da Sobral também foi afastado do cargo.
Uma das medidas cautelares determinadas pela Justiça é que a Câmara Municipal de Sobral apresente uma relação completa dos ocupantes de cargos comissionados, funções de confiança e contratados temporários vinculados à Casa, segundo a Polícia Federal.
Os nomes dos demais investigados não foram divulgados, no entanto, entre eles estão:
- o assessor jurídico da Câmara Municipal, que foi afastado do cargo;
- integrantes da facção criminosa;
- a policial militar, que foi afastada do cargo;
- um advogado;
- outros agentes públicos.
Segundo a Polícia Federal, o advogado investigado é suspeito de integrar a estrutura da organização criminosa, exercendo funções relacionadas ao núcleo de liderança e de execução de ordens voltadas à interferência no processo eleitoral.
Buscas e apreensões de aparelhos celulares, documentos e outros materiais também integraram a ação. A operação também aplicou medidas cautelares, como a proibição do contato entre investigados e testemunhas.
Conforme o Ministério Público, o nome da operação faz alusão a um rígido código de honra e silêncio da máfia italiana, que proíbe qualquer cooperação ou contato com autoridades policiais e judiciais. A quebra desse juramento significa traição ao grupo, sob pena de morte na cultura do crime organizado.
O que diz a Câmara de Sobral
Por meio de nota, a Presidência da Câmara de Sobral destacou que aguarda receber mais informações oficiais do caso e que tomará as medidas cabíveis conforme o desenrolar do caso. Confira na íntegra:
A Presidência da Câmara Municipal de Sobral informa que tomou ciência, na manhã desta terça-feira (11), de operação realizada por autoridades competentes, envolvendo medidas decorrentes de decisão judicial em face de alguns membros desta casa legislativa.
A Câmara Municipal de Sobral reafirma seu compromisso com a transparência, legalidade, o respeito às instituições e o regular funcionamento das atividades legislativas e administrativas.
A Presidência acompanha os desdobramentos do caso e, à medida que tiver acesso às informações oficiais pertinentes, adotará, no âmbito de suas competências, as providências — administrativas e institucionais que eventualmente se fizerem necessárias.
A Câmara Municipal de Sobral permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com o que for necessário, dentro dos limites de suas atribuições institucionais.
Fonte: G1



