quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A fé pode iluminar a consciência política, mas não deveria servir de instrumento para tutelar o voto dos fiéis

Por Bruno Mafra!

Um religioso tem o direito de escolher em quem votar. Sua decisão, como a de qualquer cidadão, é legítima e pode ser objeto de reflexão pública. Afinal, quando um padre ou pastor se manifesta politicamente, sua voz não é percebida apenas como expressão individual: ela carrega, muitas vezes, o peso simbólico de uma comunidade de fé.

Vivi minha infância, adolescência e parte da vida adulta na Igreja. Nesse percurso, testemunhei experiências que marcaram minha formação. Entre elas, uma das mais preocupantes foi o fanatismo político-religioso: a transformação da fé em justificativa para preferências eleitorais e disputas partidárias.

Há algo intelectualmente empobrecedor na tentativa de identificar, em candidatos a cargos eletivos, virtudes teologais que bastariam para legitimar um voto. Fé, esperança e caridade não constituem certificados de competência administrativa, honestidade pública ou compromisso democrático. A linguagem religiosa pode oferecer referências éticas à vida coletiva, mas não substitui a análise crítica de propostas, trajetórias e práticas políticas.

Não raro, a invocação de valores sagrados acaba funcionando como uma maneira de conferir autoridade moral a uma escolha pessoal e, a partir dela, convencer outros a seguir o mesmo caminho. O problema não está em o religioso ter convicções políticas, mas em utilizar a posição de liderança espiritual para converter essas convicções em obrigação moral para os fiéis.

A política com P maiúsculo exige mais do que a disputa por votos. Pressupõe compromisso com o bem comum, respeito à pluralidade e disposição para enfrentar as injustiças que atravessam a sociedade. Nesse sentido, a Igreja tem uma contribuição pública relevante a oferecer, desde que não confunda sua missão pastoral com a militância em favor de partidos ou candidatos.

O papel profético de uma comunidade cristã não consiste em indicar em quem seus membros devem votar, mas em anunciar o Evangelho, denunciar as injustiças e acolher todas as pessoas, com especial atenção aos pobres e marginalizados. Trata-se de defender princípios, questionar os poderes e cobrar coerência entre discurso e prática — inclusive daqueles que se apresentam como representantes de valores cristãos.

A Igreja não precisa escolher candidatos para cumprir sua missão pública. Precisa, antes, ter coragem de cobrar de todos eles o compromisso com a dignidade humana.

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