sábado, 29 de novembro de 2025

OPINIÃO IT – O grito que ninguém quer ouvir

Artigo traz opinião sobre caso envolvendo tragédia envolvendo um ex-casal de médicos.

Como profissional que há 15 anos atua cobrindo a área policial, já testemunhei casos que marcaram profundamente minha trajetória. Histórias de mulheres espancadas, violentadas, silenciadas, desacreditadas — e o mais triste é perceber que, apesar da luta, esse número só cresce. Nos últimos anos, cresceu ainda mais.

O caso mais recente, envolvendo dois médicos em Arapiraca, reacende uma discussão importante e, ao mesmo tempo, extremamente delicada. A ex-esposa mata o ex-marido e alega ter sido vítima de violência doméstica e que a filha também teria sido abusada. A sociedade, então, rapidamente volta seus olhos para a mulher e passa a defendê-la com unhas e dentes, como se o crime em si deixasse de existir.

E não é difícil entender o porquê. A perversidade cometida contra mulheres no Brasil alcançou um nível tão alarmante que, quando alguém reage — mesmo que de forma extrema — muitas pessoas veem ali o grito de centenas de outras que nunca puderam falar. É como se cada mulher silenciada, cada vítima sem amparo, falasse junto com essa médica. É um reflexo de uma justiça que, para muitas, não chega.

Mas existe um ponto que precisa ser dito com responsabilidade: de cada homem morto pela companheira, cem mulheres morrem pelos seus companheiros (Dados não oficiais). A matemática da violência ainda pesa contra elas. E é essa realidade brutal que sustenta a defesa automática, quase emocional, em casos como esse.

Ainda assim, não podemos permitir que um crime seja apagado por outro. Justiça não é seletiva. Justiça precisa ser clara, equilibrada e baseada em provas — não em comoção coletiva.

É urgente que medidas protetivas deixem de ser apenas papéis que cabem no bolso. Precisam ser monitoradas, fiscalizadas, acompanhadas. Um agressor não pode circular livremente como se nada tivesse ocorrido. Aproximou? Tem que ser punido imediatamente. Não dá mais para brincar com a vida das mulheres.

Por outro lado, também é verdade que há mulheres que utilizam a lei de forma distorcida, criando falsos relatos, construindo narrativas movidas por mágoa ou vingança, prejudicando inocentes e colocando-os diante de um julgamento sem contraditório. Isso existe — é exceção, mas existe — e precisa ser reconhecido sem medo de ser politicamente incorreto.

No fim, a dor de quem é vítima — homem ou mulher — nunca pode ser desconsiderada. Cada história precisa ser tratada com seriedade, com provas, com investigação, com equilíbrio. E por experiência própria, posso afirmar: muitos conflitos se desfazem quando um decide não brigar. E quando não há diálogo, quando não há respeito, quando não há limites, não existe relação que sobreviva.

O que estamos vendo hoje é um pedido de socorro coletivo. Um pedido que vem sendo ignorado há anos.

Que a justiça, desta vez, escute. E que aja. Porque vidas — de mulheres, de homens e de crianças — continuam em risco enquanto a gente trata violência como manchete e não como prioridade.

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