Aumento da representatividade e relevância do segmento eleitoral trazem o desafio de alinhar escolhas públicas a valores éticos e morais.

O Brasil tem aproximadamente 47,4 milhões de evangélicos, segundo o Censo 2022 do IBGE, o equivalente a 26,9% da população com 10 anos ou mais. Nas eleições presidenciais de 2022, uma pesquisa Datafolha apontou que 62% dos evangélicos entrevistados pretendiam votar em Jair Bolsonaro, representante da direita, enquanto 32% declaravam intenção de voto em Lula, representante da esquerda. Esses números revelam a relevância política desse segmento, mas também nos convidam a refletir: nossa fé deve ser reduzida à escolha de um candidato ou precisa orientar nossas escolhas políticas?
Como cristãos, temos princípios e valores que consideramos fundamentais: Deus, a família, a liberdade religiosa, a liberdade de expressão e o direito de professar nossa fé e exercer livremente o culto. Também defendemos a vida e nos posicionamos contra o aborto indiscriminado. Na educação e na formação das crianças, entendemos que questões relacionadas à sexualidade e à identidade de gênero devem ser tratadas com responsabilidade, respeito às famílias e consideração pela liberdade de consciência. Essas convicções merecem espaço no debate democrático e devem ser defendidas com responsabilidade, respeito à dignidade humana e compromisso com a verdade.
Entretanto, ser conservador na política não significa, automaticamente, ser coerente com os ensinamentos de Cristo. Em Miqueias 6:8, somos chamados a praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus. Em Mateus 7:16, Jesus ensina que as pessoas são reconhecidas pelos seus frutos. E Provérbios 31:8-9 nos orienta a defender os que não conseguem fazer ouvir sua voz e a julgar com justiça. Portanto, não basta defender determinadas bandeiras; é necessário avaliar também o caráter, as atitudes e as decisões daqueles que nos representam.
O cristão pode ser conservador, defender seus princípios e participar ativamente da política. Contudo, nenhum partido detém o monopólio da verdade cristã, e nenhum político está acima do julgamento moral. Apoiar um candidato não significa justificar todos os seus atos; reconhecer seus erros não é trair um lado, mas exercer a própria consciência. A fidelidade a Cristo deve ser maior que a fidelidade a qualquer liderança política.
A pergunta não é apenas em quem o evangélico vota, mas quais princípios e valores orientam seu voto. Que não abandonemos nossas convicções, mas também não percamos de vista a justiça, a misericórdia, a verdade e o amor ao próximo. Nossa participação política deve refletir os princípios que professamos e a responsabilidade que temos diante de Deus e da sociedade. Afinal, mais importante do que defender uma bandeira política é honrar, com nossas escolhas e atitudes, os valores que professamos diante de Deus.
— Marcos Queiroz



