Ex-governador rompeu com o grupo de Paulo Dantas acreditando em um novo projeto político, mas acabou fora da chapa majoritária e agora é anunciado para comandar o Fecoep.

Ronaldo Lessa já foi governador de Alagoas, vice-governador e um dos personagens mais importantes da história política recente do Estado. Aos 77 anos, depois de décadas de vida pública, decidiu romper com o grupo do governador Paulo Dantas e apostar suas fichas no projeto de JHC para o Governo de Alagoas.
Na época, a sinalização política era clara. O próprio Lessa chegou a anunciar publicamente que seria candidato a vice-governador na chapa de JHC. Dirigentes do PDT também afirmavam que o acordo estava mantido.
Mas a história mudou.
Na formação definitiva da chapa, JHC escolheu a ex-prefeita de Arapiraca Célia Rocha para ocupar a vaga de vice-governadora. Ronaldo Lessa ficou fora da composição majoritária e acabou colocado como segundo suplente de Marina Candia, esposa de JHC, na disputa pelo Senado. A primeira suplência ficou com Eudócia Caldas, mãe de JHC.
Foi aí que surgiu outro capítulo dessa história.
Lessa renunciou à segunda suplência. Segundo reportagens e declarações atribuídas ao próprio vice-governador, havia um entendimento para que ele assumisse a primeira suplência, atualmente ocupada por Eudócia. A mudança, porém, não aconteceu. Lessa chegou a afirmar que JHC não quis realizar a troca, alegando insegurança jurídica.
E aqui está o ponto que merece reflexão.
O que aconteceu com os acordos políticos feitos durante essa aproximação?
Ronaldo Lessa deixou um grupo político no qual ocupava a vice-governadoria e passou a apoiar JHC. Fez uma escolha política apostando em um novo projeto. No caminho, entretanto, perdeu o espaço que inicialmente se anunciava como seu: primeiro, a vice-governadoria; depois, a possibilidade de ocupar a primeira suplência do Senado.
E agora surge um novo anúncio.
Neste sábado (19), JHC anunciou que, caso seja eleito governador, Ronaldo Lessa será o presidente do Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza, o Fecoep.
JHC afirmou que não poderia existir nome melhor para a função, destacando a experiência e a sensibilidade do ex-governador.
Lessa, por sua vez, disse estar honrado com a possibilidade e falou sobre a necessidade de enfrentar os indicadores sociais de Alagoas.
A pergunta que fica é: como um ex-governador, que chegou a ser anunciado como possível vice de JHC, terminou sendo direcionado para o comando de um fundo estadual?
Não se trata de diminuir a importância do Fecoep. Combater a pobreza é uma das tarefas mais importantes de qualquer governo. Mas é legítimo questionar a dimensão política do espaço oferecido a Lessa diante da trajetória que ele possui e das expectativas criadas quando decidiu romper com o grupo governista.
E existe ainda outro aspecto que chama atenção.
A composição final acabou preservando pessoas do núcleo familiar de JHC na chapa ao Senado. Marina Candia é a candidata ao Senado, enquanto Eudócia Caldas ocupava a primeira suplência. Lessa, que chegou a ser apresentado como peça importante da aliança, acabou ficando de fora da disputa depois de renunciar à segunda suplência.
É justamente daí que nasce uma crítica que vem sendo feita por setores da própria política alagoana: JHC estaria priorizando o seu núcleo familiar em detrimento de compromissos políticos assumidos com aliados?
Essa é uma interpretação política — e não um fato que possa ser afirmado como comprovado. Mas os acontecimentos permitem que o eleitor faça essa pergunta.
Porque política também é feita de confiança.
E quando um político deixa um grupo, rompe alianças, muda de lado e aposta em uma nova composição, normalmente espera que os compromissos construídos nesse caminho sejam respeitados.
No caso de Ronaldo Lessa, a sequência foi diferente: anunciou-se a possibilidade de ser vice; a vaga ficou com Célia Rocha; depois veio a segunda suplência; Lessa renunciou acreditando em uma mudança para a primeira posição; a alteração não aconteceu; e agora surge a promessa de que, em um eventual governo JHC, ele comandará o Fecoep.
De vice-governador a presidente de um fundo estadual.
É uma mudança significativa na posição política de quem já comandou o Estado.
E talvez a pergunta mais importante não seja apenas o que Ronaldo Lessa vai ganhar caso JHC seja eleito, mas o que ele perdeu politicamente ao apostar nesse projeto.
Enquanto isso, JHC segue sua campanha pelo Governo de Alagoas e tenta convencer o eleitor de que representa uma renovação política.
Mas renovação também passa por transparência nos acordos, respeito aos aliados e coerência entre aquilo que se promete durante a construção de uma aliança e aquilo que efetivamente se entrega quando a chapa é fechada.
No fim, caberá ao eleitor alagoano avaliar essa história — e decidir se as alianças construídas por JHC representam apenas uma estratégia eleitoral ou se existe, de fato, um projeto político capaz de manter unidos aqueles que ajudaram a construí-lo.



